Saudades do Henfil
Março 14, 2008
Procurem pelo Google com certeza irão se deliciar. São famosas também as cartas que ele escrevia a sua mãe. Quero deixar uma delas aqui. É para ler e pensar. Apesar de ser escrita em 1978, é atual.
Natal, 12 de abril de 1978.
Mãe,
Fiquei muito alegre quando os dubladores entraram em greve. Hah, sim, lembrei. Isso não é do tempo da senhora. Dubladores são aqueles que fazem a voz no lugar dos outros. Por exemplo, a voz da Kelly, uma das panteras, quem faz é a Neuza Amaral. A da Farrah, é a Marilisi….
A greve é justa, questão trabalhista. Ponto final.
Eu estou satisfeito é porque, depois do advento dos dubladores, nunca mais ouvimos a voz real do Kojak. Ficou chatíssimo ver filme de TV. Tanto faz ser John Wayne, Woody Allen ou Baretta. A voz é sempre a mesma do mesmo dublador. E a aflição que dá ver o Marlon Brando movendo os lábios assim, e a voz saindo assado?
Talvez o desespero que toma conta da gente, quando vê um filme dublado, seja apenas identificação. Nossa situação é a mesma, mãe! Nunca notou que a minha voz, a voz da senhora, do Carlito, da Regina, do Alfredo, da Jane, da Nelma, do Humberto, do Ivan, a voz de 110 milhões de brasileiros é feita pelo mesmo dublador?
Eu quero ouvir a minha voz!
Um beijo do seu filho,
Henfil
(fonte:http://www.culturabrasil.pro.br/cartasdamae.htm)